segunda-feira, 25 de abril de 2011

O dia em que Alcione chegou na Correa Dutra





Nossas noites de fim de semana sempre foram previsíveis. Podendo começar na quinta-feira, se houvesse um motivo mínimo, tal como um aniversário, o anúncio de um noivado, ou mesmo a reposição do estoque de cerveja no bar do Manolo.
É. Na verdade não precisávamos de um motivo assim, tããão forte para “começarmos os trabalhos”. Assuntos não faltavam. O conhecimento geral se instaurava com propriedade, através da fala dos entendidos em futebol, política, economia, mulher, sexo e tantos outros assuntos; fosse pela experiência comprovada, fosse pela teoria adquirida em algum almanaque do Biotômico Fontoura. Sabíamos tudo (como ainda hoje, achamos que sabemos) e as conversas fluíam, entremeadas entre uma gozação com quem chegava ou com quem saísse antes da hora. Esposas, namoradas, noivas e até mesmo mães, policiavam de forma velada, a nossa permanência nos botecos de nossas vidas.
A primeira cerveja gelada, esfumaçando, era o prenúncio de noites dignas de estarem presentes na memória de nosso blog. As conversas, como disse, eram tantas, mas falava-se também de música, de samba principalmente. Coisa de carioca.
Morar em uma rua que estava entre o morro e mar causava-nos um choque de influências culturais, muito interessante. Isto acontece no Rio de Janeiro, sim senhor. É forte, essa coisa do samba em nossas veias.
Tínhamos amigos no morro da Tavares Bastos que nos trouxeram esta influência mais presente, pois faziam parte de um grupo de samba, do qual não me lembro o nome. Além disso, tínhamos o bloco Embalo do Catete que arrastava multidões nos dias próximos ao carnaval.
E por esse motivo e tantos outros que mereceriam uma tese mais profunda, depois da terceira cerveja ou quarta, quinta, sei lá; alguém puxava (“puxava” não, pois segundo Jamelão – intérprete maior dos sambas enredos do Rio – “puxador” era como eram chamados os ladrões de carro, na época em ele era da polícia civil); então...quando alguém começava a cantar um samba, a epidemia se alastrava e todos eram contagiados. Difícil ficar impassível, diante da “febre” que fazia com que ao menos os pezinhos não marcassem o ritmo do da canção.
Certo dia, o “ensaio” já ia lá pelas 11:00h; quando de repente, eis que surge no ar, em alto e bom som, uma voz que ecoou por toda a esquina da Correa de cima. Quem era? Era uma voz que lembrava alguém conhecido, com um timbre rouco, mas que parecia um trovão afinado, cantando uma música que chamava a atenção - “Meu menino sem juízo”, tomou conta daquele momento. Foi aí que vimos, em pé, sobre um pequeno reboque da Light, ninguém mais do que nosso amigo Marcos “Frango”.
Pessoas apareceram na janela, alguns até aplaudiram, outros até pensaram que era Alcione cantando e nosso amigo fazia apenas a dublagem. Talento nato daquele menino/rapazote que desde então, já mostrava sinais de que Juca Melão um dia chegaria.
Sabe, meu menino sem juízo....” Era surpreendente! Não é que aquele negrinho já tinha público!? Os frequentadores dos botecos do prédio 166 bem como os porteiros dos demais prédios, se divertiam com a performance do cover de Alcione. Interpretação que até hoje lhe rende elogios, mas com apresentações mais intimistas em ambientes mais privados.
Não sei se seus parceiros atuais de banda (ou seria um grupo?), sabem deste detalhe biográfico do Juca Melão, mas sabemos nós, seus parceiros de juventude e amigos de sempre.
Felicidades meu amigo, nosso amigo, Juca Melão. A você e a Alcione, que lhe deu inspiração para soltar a voz e nos brindar com este samba, que nunca mais saiu de nossa memória.

Kibe

Um comentário:

Marco Neves, JucaMelão, Gofran disse...

Meu camarada e grande esccriba, estou muito lisogeado com a performance de seu comentario, estou lhe garantindo veladamente que estou emocionado e com os olhos marejados, muito obrigado por este resumo singelo, do que era a nossa rapaziada, fique com Deus e, que Ele lhe dê muita força e sabedoria, para que voce continue descrevendo nossas vidas com tanta propriedade. Valeu meu amigo, muitos beijos e abraços de agradecimento.

Marco Neves, Juca Melão, Gofran.