Um confrade nosso de longas datas,
cansado da agitação da cidade, aposentou e combinou com a família que passaria
um ano morando sozinho no interior do Piauí.
Lá, o carteiro passa de vez em
quando. Jornal, nem pensar, e mercearia leva duas horas para ir e outras duas
para voltar. Uma paz total, tranquilidade,
rede para descansar, e pescaria num riacho perto da roça. Tudo que ele queria
para recarregar suas pilhas, como ele mesmo dizia.
Passados seis meses, véspera do
Natal, batem na sua porta, que se abre sozinha, pois nem chave tinha.
É um bicho da terra. Um cara
barbudo, alto, muito forte, fora dos padrões da região, que mal encarado, com
um facão na cintura e a marca de um trabuco sob a camisa, começa a prosa:
- Sou Zezão, seu vizinho, umas 10
léguas daqui. Sexta-feira tem uma festinha de Natal lá em casa. Espero ocê às
cinco.
Nosso amigo se empolga:
- Com prazer meu amigo... depois
desse tempo por aqui, sozinho, nada melhor que uma reuniãozinha. Vou sim, conte
comigo e obrigado pelo convite.
Zezão, com a cara
fechada,complementa:
- E vai rolar bebida.
A resposta é imediata:
- Sem problema. Eu também gosto.
Zezão se vira para partir, mas dá
uma paradinha e diz:
- Mas aviso que pode ter briga.
Nosso confrade não se intimidou:
- Para mim não é problema .. eu me dou bem nesses
lugares e me garanto....não se preocupe, e obrigado pelo aviso.
O fortão se aproxima e fala mais manso:
- Ah.....deve rolar um sexo meio selvagem...
O confrade não aguentou e respondeu de imediato:
- Estou aqui faz 6 meses, sozinho....Agora que eu
quero ir mesmo.
- E, aproveitando a dica, me diz uma coisa, qual o
traje, já que por aqui eu fico muito a vontade?
Zezão encostou um dedo no peito do confrade, que se
contorceu com o toque, e respondeu:
- Cê que sabe. É só nóis dois na festinha.
Virou-se e foi embora, mas deu
uma paradinha com a mão na cintura, segurando o facão, disse por último:
- E não se atrase...