sábado, 7 de abril de 2012

A Praia do Silêncio – aventura insquecível.

S
ão três anos e meio de Drinks&Kibe.  Por aqui já passaram várias histórias, pedaços de nossas vidas, com lembranças diversas e até a torcida pela incrível recuperação do mano Byra.  Aliás, uma vitória que completa hoje 241 dias e podemos dizer que a seqüela maior é a mobilidade parcial do braço esquerdo e a dor no ombro que não passa, e tudo indica que infelizmente ele vai ter que conviver com isso.
Byra não reclama. Reconhece que depois de tudo que passou, pode se considerar um privilegiado. E não é só ele, todos nós estamos agradecidos, e continuamos a torcer por sua melhora.
E para comemorar a Páscoa de 2012, ou melhor a Semana Santa, dias tão esperados para uma folguinha, tanto na escola quanto no trabalho, vamos nos lembrar daquele que se não foi o melhor, com certeza foi o mais emocionante de nossos acampamentos.
1972, exatos 40 anos atrás, e parece que foi ontem. O local escolhido, a deserta e pouco conhecida, na época, Praia do Silêncio, que hoje é a bastante conhecida Praia do Sossego, uma prainha encravada entre Camboinhas e Piratininga.
Roberto Azulão já tinha acampado por lá com um grupo pequeno mas a idéia agora era fazer um super acampamento.  E foi o que aconteceu.
Os preparativos eram feitos principalmente pelo próprio Roberto, pelo versátil Jhonny (ou Jonnhy, nunca sei o certo), que na época estava fora das grades, além do André, saudoso amigo, e um pouco de cada um de nós.
Dessa vez até algumas meninas confirmariam o convite, o que não era muito comum naquela época. Iluska, Alana  e duas outras meninas, que me desculpem, não lembro os nomes, se juntaram  aos 19 rapazes para a aventura do outro lado da poça, como falávamos naqueles bons tempos.
A grande preocupação nossa era a chuva. Para nós, a semana santa era sempre sinal de chuva e dessa vez não seria diferente. No entanto a disposição era maior e além de tudo estávamos com o “Tenente” Jhonny, conhecedor profundo das técnicas de acampamento e sobrevivência em qualquer lugar,  como ele não cansava de falar.
Não existia a ponte e fomos todos de barca. Uma viagem muito alegre com cantorias e até ambulantes vendendo a famosa pomadinha japonesa.
O que a maioria não sabia era que ao chegarmos em Piratininga, tínhamos literalmente uma pedreira para escalar.  O morro era, e ainda é, bem íngreme, mas o pior era a descida para a praia, pois a trilha era bem estreita, colada no penhasco e todo o cuidado era pouco.
Além de Jhonny, e sua duvidosa experiência, contávamos com o apoio de Roberto, marinheiro, Clerton, o Xin, que tinha servido na aeronáutica, e Rogério e Betinho PQD, que estavam na ativa do Exército.
Se a subida não era tão ruim, a descida era realmente um desafio. As meninas tremiam de medo e já se mostravam quase arrependidas na aventura.  Uma corda foi amarrada para facilitar o acesso e o mais incrível é que depois descobrimos que o local escolhido era uma moita de capim alto que com um puxão mais forte teria soltado e levaria junto quem estivesse por ela amparado.
Conseguimos chegar na praia. Todos sãos e salvos e prontos para a primeira grande tarefa do dia: armar as barracas, no sentido literal, claro. Duas grandes, uma para os rapazes e outra para as meninas. E uma barraca menor para os mantimentos.
Tarefa para os mais experientes.  Para os demais, a exploração do local. Logo descobrimos uma caverna, transformada numa espécie de banheiro privativo,  com prioridade para as meninas, como não poderia deixar de ser.
E como todo bom acampamento, tão logo arrumamos a casa, já se pensa na comida. O cardápio era o mais comum, macarrão, salsicha, sardinha em lata, tudo acompanhado por sucos e garrafões de vinho.  Lembro bem que o Ari se agarrou em um deles e não o soltou enquanto não chegou à última gota.

O primeiro dia foi bem tranqüilo e passou rápido. Com o cair da noite, o primeiro problema.  Nossa querida Alana começou a sentir dores na barriga e Jhonny foi o primeiro a analisá-la. Passou a mão para cima e para baixo e diagnosticou como apendicite. E não foi só ele. Outros também correram para ver o que a menina tinha.  PQD, que a namorava de vez em quando, deu uma passadinha mas logo a deixou de lado.  Drinks, amigo bastante chegado, verificou profundamente e achou que não era caso de apendicite.  Outros também tentaram fazer o “exame” mas ela conseguiu se recuperar e sair da crise.  Até hoje ninguém sabe dizer qual foi o mal que a atingiu mas alguns se lembram bem dos famosos exames.
O dia seguinte amanheceu nublado.  O que temíamos parecia acontecer e a maioria, depois do almoço, trocou o banho de mar por um passeio pela Praia de Piratininga, então uma praia bem deserta, bem diferente dos dias de hoje.
Com cuidado redobrado subimos o penhasco e descemos na praia.  Um visual incrível.  Foi pena não existir ainda a máquina digital, pois minha câmera era pesadona e não a tinha na mão.
Passeamos por toda a praia e ao voltarmos começamos a sentir os primeiros pingos de chuva. Passos acelerados e mais cuidados, tanto para subir quanto, principalmente, para descermos aquela encosta, agora debaixo de chuva e com o breu de uma escuridão que assustava até os mais experientes. Com muito esforço e com a ajuda da moita, conseguimos chegar ao acampamento.
Não parava de chover e a maré subia rápido. As meninas choravam e tentávamos acalmá-las. O vento aumentava e a nossa barraca não resistiu. Fomos todos para a das meninas quando alguém deu a feliz idéia de irmos para a caverna, lá teríamos mais espaço além de ser um lugar mais alto e aparentemente mais seguro. A água não parava de subir e para lá fomos todos. 
Então sentimos a falta de alguns de nossos companheiros. Byra, Zé Kley e Abacaxi não estavam entre nós. Eram os mais jovens e caminhavam com a gente em Piratininga. Nós chegamos na frente e me lembrei que fui um dos últimos a descer, porque fiquei exatamente na moita onde a corda estava amarrada para ajudar principalmente as meninas que estavam apavoradas com a escuridão e a chuva.  Aliás, os raios nos ajudavam a andar, pois clareavam bem a nossa trilha.  Na verdade o que mais assustava eram os trovões, sempre fortes e pareciam cada vez mais pertos.
Na caverna, sentamos junto com os “marinheiros” do almoço, alguns ainda frescos e com cheiro forte. Anterão pedia que rezássemos e eu, Santa e Clerton preocupávamos cada vez mais com nossos irmãos que não chegavam.  Sabíamos no entanto que seria muito difícil, naquele momento, a descida para a praia, e como notícia ruim chega logo, tentávamos acreditar que eles estariam bem.
Num gesto heróico, e sempre lembrado por todos nós, Rogério e PQD, debaixo do temporal, subiram o morro e foram até o outro lado da praia.  Nesse momento, ouvimos um grande trovão, bem em cima de nossas cabeças, e eu e outros que estavam sentados na água, recebemos um pequeno choque nas nádegas.  Foi o suficiente para uma correria para a praia.
- eu não disse para rezarmos.  Dizia Antero apavorado com a situação.
A chuva ainda caia quando chegaram Rogério e PQD com a informação que não acharam ninguém. Não tínhamos nada a fazer senão esperar o amanhecer.
Com menos vento e o mar mais calmo, fomos todos para a única barraca em pé, a dos mantimentos. Sei que alguém sentou no açúcar e ficou bem melado. Outros se apertaram que até dormiram. Alguns, como eu, viram o dia amanhecer.
Amanhece sem chuva. A maré desceu e não temos alternativa, arrumar o que sobrou e voltarmos para casa.  Eu, Clerton, Rogério e Santa, preocupados com os garotos, nos preparávamos para uma nova busca quando ouvimos gritos da encosta. Chegam alegres e faceiros, Byra, Zé Kley e Abacaxi, todos bem dispostos, perguntando como tínhamos passado a noite debaixo daquele temporal.
Foi uma sensação incrível. A vontade de abraçá-los era grande, quase tanta quanto a de dar uma porrada em cada um. Mas passado a euforia pedimos para que explicassem o que tinha acontecido.
- vocês estavam bem na frente quando nós começamos a subir o morro. De repente tudo ficou escuro e chovendo.  Confesso que estávamos com medo, quando alguém nos chamou.  Era um senhor, gente muito fina, que mora numa casa, no alto do morro, que ouviu nossa história e não deixou que seguíssemos em frente pois com aquele tempo dificilmente conseguiríamos descer. Disse o Byra.
E completou Zé Kley:
- ele nos deu um chocolate quente, conversamos um tempão e depois ofereceu um lugar para deitarmos e dormir.  E vocês? Aconteceu alguma coisa?
- não, nada demais, apenas um temporalzinho, mão na merda, choque na bunda e sem dormir pensando em vocês...
O fim do passeio foi o rescaldo pelas coisas perdidas.  Achei minha mochila enterrada por causa de uma de suas alças. Comida, nem pensar.  Só nos restou guardar o que salvamos e voltarmos para casa. Uma aventura realmente inesquecível. 
Algum tempo depois viemos a saber que nas noites de temporais, como aquele, é comum a maré subir e inundar inclusive a caverna. Papo suficiente para suspendermos os acampamentos no local, tão belo e bem mais perigoso do que sabíamos, apesar dos amigos tão experientes que nos levaram para essa incrível aventura.  Valeu !

2 comentários:

LÉO "TUTA" disse...

Eu acampei algumas vezes lá, sempre com grupo numeroso e cheguei a pegar a tal chuva, mas nunca nos complicou, apesar do mar subir bastante. A descida era, realmente, complicada e perigosa, e me lembro que, num determinado ponto, fazia uma espécie de degrau e a gente tinha que segurar uma moita, pra ajudar; não sei se era a mesma. Certa vez, à noite, estávamos acampados e um grupo que estava indo pela 1ª vez acendeu uma lamparina com um bujãozinho de gás e quem tava segurando, se assustou e largou na pedra e o dito explodiu. Problema, só tivemos uma vez quando fizemos uma farofa de tatuí, e o Vicentinho(que jogou no urubu)teve uma intoxicação braba e tivemos que abortar a viagem, pra levá-lo pro hospital!!!!

Luiz Claudio disse...

Viajei na história, Zé! Olha só, a gente vai lendo e vendo as cenas. Fico imaginando os filhos e netos de voc~es, lendo estas histórias.

Show de bola! O show tem que continuar. Tô junto, você sabe!

Abração!

Kibe